Mostra de Curtas “10 anos de Novelo Filmes” e reflexão sobre a realização de filmes

Em 2020 a produtora Novelo Filmes completou 10 anos e nos dias 31/10/2020 a 03/11/2020 aconteceu a mostra comemorativa de curtas que contou com as sócias Ana Paula Mendes, Cíntia Domit Bittar e Maria Augusta V. Nunes. Em videoconferências informais, descontraídas e acolhedoras assistimos e discutimos a fundo quatro filmes em quatro dias: “O segredo da Família Urso” (2014), “Baile” (2019), “Qual Queijo Você Quer” (2011) e “Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim” (2018).

Abaixo, compartilho com vocês algumas reflexões registradas a partir do nosso rico debate partindo da perspectiva de que os processos de criação, comunicação e realização de produtos audiovisuais são processos educativos e afetivos. (Clique em “Leia Mais” para ver todo o texto).

A participação da equipe

A realização de uma obra audiovisual, para quem gosta, é um processo muito rico e prazeroso. O cinema, como uma arte que envolve o trabalho coordenado de diversas pessoas, às vezes cada uma especialista em sua função, pode se beneficiar um nível de sintonia grande entre a equipe. E uma coisa que certamente pode ajudar no envolvimento da equipe é o quanto as pessoas se identificam com o tema da obra. 

Quando trabalhamos em um projeto de filme com uma história que nos identificamos e acreditamos, a gente se sente muito mais motivado a trabalhar. Nessa perspectiva, relacionar a equipe/elenco com a história, e vice-versa, pode tornar a experiência em algo para além da experiência profissional, revolucionando a experiência e a vida das pessoas envolvidas como um todo. 

Este foi o caso de vários filmes realizados pela Novelo, apresentados na mostra comemorativa, em que, por exemplo, atrizes protagonistas dos filmes tiveram experiências transformadoras. Em uma escala menos pessoal, a nível comunitário, podemos também ter como exemplo os filmes realizados pelo projeto Babitonga Ativa, em seus ciclos de educomunicação audiovisual, abordagem temas globais a partir de um nível local. Também a nível comunitário, segundo a equipe da Novelo, devemos ter um grande senso de responsabilidade ao fazer gravações em comunidades das quais somos pessoas externas, no meu entendimento, para não reproduzirmos uma metodologia extrativista dentro do campo cultural. O caminho é sempre buscar o envolvimento, a participação e a coletividade com equipe e com as comunidades nas quais atuamos.

Pode também ser importante para os trabalhos no set de filmagem que todas as pessoas da equipe estejam na mesma página, com um nível próximo de conhecimento sobre o que vai acontecer. Quanto maior o envolvimento e conhecimento com uma determinada cena, melhor a qualidade do material audiovisual captado. Isso se faz com reuniões de equipe, ensaios, com uma boa explicação do roteiro e com storyboards bem desenhados, por exemplo. Enfim, diversas são as formas de comunicar o que se pensa criativamente para o filme. Porém, o cenário em que todas as pessoas envolvidas na produção sabem tudo sobre ela é ideal. Não dá para exigir a imersão completa de todo mundo, mas quanto maior o impacto das ações de determinada pessoa na filmagem de cada cena, maior é a importância de seu conhecimento e envolvimento com o projeto. Para completar, Cintia disse que no set “não pode ter ninguém boiando”, sabendo nada ou muito pouco sobre o que está acontecendo.

Além disso, em um filme que pertence a todas as pessoas envolvidas, elas devem ser creditadas individualmente por suas funções, com a determinada importância dada em sua contribuição, ao invés de dizer que é “um filme de tal pessoa”, numa forma de apresentar a equipe que invisibiliza a existente equipe.

Acredito que ao pensarmos na participação da equipe como uma experiência pessoal e profissional, respeitando a individualidade de cada pessoa, e ao mesmo tempo valorizarmos a sintonia e cooperação da equipe, temos grandes chances de que a experiência coletiva seja de qualidade para todos e todas envolvidas, ao mesmo tempo que o processo culmine na obra audiovisual.

Questões de orçamento

O dinheiro é um fator que influencia muito o “como fazer” de um filme. Vamos aqui usar o termo “orçamento” como a ferramenta de planejamento que descreve como será investida uma determinada quantidade de dinheiro nas etapas da realização de um filme.

Dentre diversas abordagens possíveis, descrevo duas: (1) adequar a realização do filme a um valor fixo de orçamento – como é o caso de prêmios, editais e outros tipos de financiamentos em que você inscreve seu projeto em uma determinada categoria com um valor específico para cada uma; e (2) preparar um orçamento baseado no planejamento para a realização do filme – como é o caso de quando você planeja todo seu filme em um cenário em que o dinheiro não é um fator limitante. Acredito que as abordagens são complementares. Explico: você cria, escreve, planeja seu filme e tenta estimar quanto vai custar (modo 2) e, como o mundo não é um lugar ideal, você adapta seu filme para ele caber em um orçamento real (modo 1). 

Dentro do planejamento da realização de seu filme, existem itens que representam uma parcela relativamente maior no orçamento, como a contratação de uma grande quantidade de profissionais por vários dias, por exemplo. Nessa lógica, uma coisa relativamente simples de se observar que influencia diretamente o valor total de seu orçamento é a quantidade de dias de gravação, ou “diárias”, que se leva para gravar tudo. Segundo Cintia, a quantidade de diárias tem influência direta no orçamento, e a partir de um valor pode-se prever superficialmente quantas diárias poderão acontecer. Ah, também devemos lembrar que um filme pode arrecadar dinheiro depois de realizado, seja por prêmios em festivais, contratos para exibição ou veiculação.

Dentro do contexto da produção independente de filmes, com nenhum ou com pouco dinheiro, ou mesmo no contexto dos vídeos produzidos em oficinas (como a Oficina de Vídeo, da qual sou ministrante), gosto muito de trabalhar a questão da limitação criativa. Acredito que o orçamento, a disponibilidade das pessoas/profissionais, equipamentos e o tempo que temos para realizar, por exemplo, podem ser usados para delimitar o tamanho da obra que vamos gravar, as características das personagens, quantas cenas podemos de fato gravar, em quais locais, e isso, de alguma maneira ajuda a criarmos algo que pode ser produzido do começo ao fim. Tenho chamado projetos assim de “roteiros realizáveis”, e espero que, a medida que a minha carreira e o contexto no qual estou inserido se desenvolvem o espectro do que é “realizável” se amplie. 

Considerando o isolamento do interior dos grandes centros, seja pela distância ou pelos inviabilizantes custos de uma formação em produção audiovisual em tais lugares, tal abordagem pode ser um fator determinante para a aprendizagem-ensino em audiovisual em contextos de difícil acesso a formação.

É hora de gravar

O “momento do set”, ou seja, quando vamos de fato gravar, tem que ter o principal objetivo de captar o máximo de material de qualidade para dar segurança na edição, segundo Cintia. Concordo a fundo com essa linha de pensamento sobre esse momento de ápice de envolvimento, técnica e arte que é quando as câmeras, microfones, luzes estão rodando e atenção de todo mundo é máxima. Para garantir que temos o mínimo que precisamos para montar nosso filme ao término da gravação, acredito que seja importante tentar gravar todas as cenas previstas. Porém, o momento do set também nos trás percepções e ideias inesperadas, e devemos ter a abertura e a sabedoria para identificar estes momentos e alocar nosso precioso tempo de set para tentar gravar cenas extras, ou até mesmo as nossas cenas planejadas de outra forma.

O ensaio das cenas muda as ações e os diálogos que vão para o set. Assim, especialmente para atrizes e atores de pouca experiência, ou até mesmo pessoas que nunca tiveram experiências com atuação, é importante que ações e diálogos sejam adaptados e alinhados com a sua forma de interpretação, de atuar ou abordagem para as ações e diálogos. 

Em meus roteiros, escrevo alguns personagens baseadas em pessoas da vida real, que em alguma oportunidade entrevistei, convivi ou até mesmo sou um amigo próximo. Nesta dinâmica, gosto de apresentar as personagens para suas musas e musos inspiradores para que opinem na criação feita a sua semelhança e, geralmente, colho bons frutos deste processo. Estes personagens sempre trazem o desejo oculto de serem interpretados pelos próprias pessoas nas quais foram baseadas, coisa que nem sempre é possível. De qualquer maneira, devem ser encontradas as oportunidades de incorporar no filme os potenciais que cada pessoa pode trazer, para materializar a emoção e a forma de lidar com as situações retratadas, humanizando a obra como um todo.

Na hora de gravar, uma prática que pode contribuir com a qualidade do material audiovisual captado é permitir que hajam “respiros” ou “margem de espontaneidade”. Tanto antes de uma cena ser realizada na frente das câmeras, ou depois, é interessante que se permita a espontaneidade que precede ou sucede as ações e/ou diálogos registrados para o filme. Isso, segundo Cintia, dá uma espontaneidade maior para os acontecimentos no caso de, na etapa de montagem, seja necessária usar trechos que antecedem ou sucedem a cena em si. Outra prática relevante, trazida por Cintia, para o momento do set é rever o seu nível de perfeccionismo quanto a execução das cenas. Será que vale a pena pedir para “cortar” a cena ao sinal de qualquer coisa diferente do planejado ou ensaiado? Na perspectiva do aprendizado no set, e no respeito às particularidades e trocas na atuação, acredito que aí cabe uma reflexão. Vale considerar que existem coisas que podem ser inaceitáveis para a direção, como falhas técnicas de imagem, luz e som, erros de continuidade e na linha da história, e aí sim, vale o certeiro “corta!”.

Também há de se tomar um cuidado com a ideia de que gravar as cenas com duas ou três câmeras ao mesmo tempo pode ajudar na edição do filme por possibilitar uma maior escolha de ângulos. Essa ação vai gerar uma quantidade grande de material – possivelmente redundante – que vai duplicar (ou triplicar) a quantidade de material em vídeo que quem vai montar o filme terá que assistir para encontrar as melhores tomadas. Acredito que se a ideia de gravar em mais de uma câmera estiver contextualizada na demanda visual que a cena tem, couber no orçamento e na capacidade da equipe de executar, ela pode ser usada. Mas a princípio, segundo Cintia, que muitas vezes é diretora e montadora dos filmes que participa, gravar com uma câmera permite que a direção do filme se concentre em um enquadramento, ponto de vista e ação de cada vez, otimizando assim essa única linha de material na montagem.

Para concluir 

É com alegria que percebo e relato neste texto que produtoras como a Novelo Filmes tem, nos seus processos de realização de filmes, abordagens humanizantes, educativas e formativas para as pessoas envolvidas, para além do que já pode ser percebido previamente, ao assistir as obras realizadas pela produtora de Ana Paula Mendes, Cíntia Domit Bittar e Maria Augusta V. Nunes.

Como artista e educador, penso que uma abordagem educativa para um set de gravação, considera que o conjunto de pessoas participantes na equipe estão em um processo de constante de aprendizado-ensino. Neste contexto pessoas com inexperiência, porém curiosas, interessadas e se sentindo responsáveis pela obra a ser realizada são muito bem-vindas. Elas levarão a obra adiante, estarão envolvidas a fundo com as etapas e colherão ótimos frutos com a sua conclusão. A realização de obras audiovisuais com as características descritas neste texto tem um potencial de impacto grande para as pessoas e comunidades envolvidas antes, durante e depois da realização do filme, e apontam para proximidade da comunicação e das artes com a educação.

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